segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Filho meu, dá-Me o teu coração – M. Lloyd-Jones


(Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus). Chegamos agora ao que indubitavelmente é uma das maiores afirmações encontradas em qualquer dos vastos domínios da Escritura Sagrada. Quem quer que chegue a captar um pouquinho que seja do significado das palavras: «Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus», só poderá abordá-las com sentimento de temor e de sua total falta de adequação...


Encontra-se aí, por certo, a própria essência da posição cristã e do ensino cristão. «Bem-aventurados os limpos de coração». E disso que trata o cristianismo, Sua mensagem é essa. . . O Evangelho de Jesus Cristo lida com as coisas do coração: toda a sua ênfase recai no coração. . . Leia nos Evangelhos os relatos do ensino de nosso bendito Senhor, e você verá que de começo a fim Ele fala a respeito do coração. . . Nosso Senhor sem dúvida põe essa ênfase aí por causa dos fariseus. Era a grande acusação que Ele sempre lançava contra eles, por mostrarem interesse pelo exterior dos copos e pratos, enquanto ignoravam o interior. Vistos externamente, estavam sem mancha. Mas por dentro estavam cheios de rapina e iniqüidade. Sua maior preocupação era com o conjunto de atos externos da religião; mas esqueciam os preceitos mais importantes da lei, a saber, o amor a Deus e o amor ao próximo.


Assim é que o Senhor repete aqui Sua grande ênfase neste ponto. O coração ocupa toda a parte central dos Seus ensina¬mentos. . . Ele dá ênfase ao coração, e não à cabeça. . . Ele não elogia os intelectuais; Seu interesse está no coração. . . Devemos sempre evitar dar-nos por satisfeitos com um mero assentimento intelectual à fé ou a dado número de proposições. Devemos fazer isso, mas o terrível perigo é que fiquemos só nisso.

A obra prima de Satanás – M. Lloyd-Jones


É justamente aqui que o diabo causa confusão. Para ele é conveniente que as pessoas se preocupem com a santificação, a santidade e várias outras coisas, mas elas nunca estarão certas enquanto não estiverem certas neste ponto, razão por que devemos começar estudando esta. . . grande doutrina (da justificação). 

Esta confusão é problema antigo. Em certo sentido é a obra prima de Satanás. Ele até nos anima a tratarmos de ser virtuosos, ao mesmo tempo que nos mantém confusos neste ponto..Uma coisa que deixa claro que ele está fazendo isso nos dias atuais é que muitas pessoas, na igreja, parecem considerar os homens como cristãos simplesmente porque estes fazem boas obras, ainda quando estejam completamente errados quanto a esta verdade preliminar. . .

Era o que Jesus estava dizendo continuamente aos fariseus, e certamente essa foi a principal dissensão que Paulo tinha com os judeus. Estes laboravam em completo erro quanto a toda a questão da Lei, e o principal problema era mostrar-lhes o modo certo de considerá-la. Os judeus criam que a Lei fora feita por Deus a fim de que o homem pudesse salvar-se mediante sua observância. Diziam que tudo o que se tem que fazer é cumprir a Lei. . . e que se você vivesse de acordo com a Lei, Deus o aceitaria e você seria agradável à Súa vista. E acreditavam que podiam fazer isso, porque jamais tinham entendido a Lei. Eles a interpretavam à sua maneira, fazendo dela uma coisa que estava ao alcance deles. Deste modo, achavam que tudo estava bem. Esse é o retrato dos fariseus, dado pelos evangelhos e pelo Novo Testamento em geral. . . e ainda constitui a essência do problema de muita gente.

Temos que perceber que há certas coisas que devem ficar perfeitamente claras para nós antes que nos seja, de fato, possível esperar ter paz e desfrutar a vida cristã.

 

A Santificação não é Opcional – M. Lloyd-Jones


O perdoar-nos e o libertar-nos da condenação e do inferno nunca constituem um fim em si mesmos, e nunca devem ser considerados como tal. São apenas um meio para um fim ulterior. Não podemos deter-nos no perdão e na justificação.

Vamos examinar mais de perto o que o apóstolo ensina aqui sobre esta grande doutrina da santificação. O primeiro princípio é que nada é tão completamente antibíblico como separar justificação e santificação. Muitos o fazem. Dizem eles: "Você pode crer no Senhor Jesus Cristo como seu Salvador, e seus pecados serão perdoados, e você será justificado. E poderá parar aí". Dizem mais: "Naturalmente você não deve fazer isso, deve prosseguir e dar o segundo passo. Contudo existem muitos cristãos", dizem eles, "que param aí. Crêem em Cristo para a salvação e são justificados e perdoados; certamente são cristãos, porém não se ocupam da santificação". E então eles o exortam a "aceitar" a santificação como anteriormente "aceitaram" a justificação. Tal ensino é uma completa negação daquilo que o apóstolo diz aqui, e é comple¬tamente anti-bíblico. A morte de Cristo não visa meramente a dar-nos perdão, e a justificar-nos, e a tomar-nos legalmente justos aos olhos de Deus. "A si mesmo se entregou por ela, para (a fim de)...". É somente uma primeira ação de uma série; não é uma ação final, em nenhum sentido, e jamais deveríamos parar ali.

O apóstolo não ensina esta verdade somente aos efésios; ele a ensina a todas as igrejas. Vocês a encontrarão na Epístola aos Romanos, capítulo oito, versículo 3 e 4. Também em Tito 2:14: "Jesus Cristo, o qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniqüidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras". É por isso que Ele Se entregou por nós; não meramente para que pudéssemos ser perdoados, nem meramente para salvar-nos do inferno, mas para purificar e separar para Si este povo peculiar, zeloso de boas obras. O Senhor Jesus disse tudo isso em Sua oração sacerdotal (João 17:19): "E por eles me santifico a mim mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade".

Parar na justificação não é somente errado quanto ao pensamento; é impossível por esta razão: que é uma obra realizada por Cristo; é Ele que faz isto em nós. Ele Se entregou pela Igreja. Por que? Para poder santificar e purificar a Igreja. Ele é que vai fazer isso. Todo o problema surge do fato de que alguns persistem em considerar a santificação como uma coisa que compete a nós realizar. Isso jamais é ensinado em parte alguma das Escrituras. O ensino das Escrituras é o seguinte: Cristo pôs Seu coração e Seu afeto na Igreja. Lá estava ela, sob condenação, em seu pecado, em seus trapos e em sua baixeza! Ele veio, houve a encarnação, Ele tomou sobre Si a "semelhança da carne do pecado" (Romanos 8:3). Ele tomou os pecados dela sobre Si, e os suportou em Seu próprio corpo no madeiro. Ele sofreu o castigo, Ele morreu, Ele fez a expiação e nos reconciliou com Deus. Assim a Igreja está livre da condenação. Mas isso não O satisfaz. Ele quer que ela seja gloriosa, Ele quer apresentá-la "a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante''. Portanto, Ele começa imediatamente a prepará-la para esse destino. Não pode parar no primeiro passo; Ele vai adiante, para santificá-la. Noutras palavras, Sua morte na cruz por nós e por nossos pecados foi simplesmente o primeiro passo neste grande processo. E Ele não se detém no primeiro passo. Ele tem um propósito completo para a Igreja, e o vai cumprindo passo a passo.

Gostaria de expressar isto vigorosamente. Em última análise, eu e você não temos escolha nesta questão da santificação. É algo que Cristo realiza. Ele morreu por você, e depois, tendo morrido por você, Ele vai lavá-lo, santificá-lo, purificá-lo - e Ele mesmo fará isso. Que ninguém se engane sobre isto. Se Ele morreu por você, levará adiante o processo de santificação em você, e finalmente o tornará perfeito. Há algo de alarmante em torno disto; no entanto, é ensino bíblico essencial. Se eu e você não nos submetermos voluntariamente a este ensino, Ele tem outro meio de purificar-nos; e o usará - "Porque o Senhor corrige a quem ama, e açoita a qualquer que recebe por filho" (Hebreus 12:6). Ele não permitirá que você fique onde estava, em sua imundície e vileza, dizendo: "Está tudo bem comigo, Cristo morreu por mim, eu estou perdoado, sou cristão". Ele não aceitará isso! Ele o amou, você Lhe pertence; e Ele o tornará puro. Se você não vier voluntariamente, e do modo certo, Ele o colocará naquela academia de ginástica sobre a qual lemos em Hebreus.

Ele aparará as arestas, eliminará a imundície e a vileza; Ele lavará você. Isso pode acontecer por meio de uma enfermidade que Ele fará sobrevir a você. Estes pregadores da "cura divina" que dizem que Deus nunca envia doença, estão simplesmente negando as Escrituras. Como um dos Seus métodos, Ele castiga. As circuns¬tâncias que o cercam podem ser más, você pode perder o emprego, ou uma pessoa que lhe é cara pode morrer. Cristão! Uma vez que você Lhe pertence, uma vez que Cristo morreu por você, Ele o tornará perfeito. Lute contra Ele quanto quiser em sua estultícia, Ele o lançará por terra, Ele o purificará, Ele o aperfeiçoará. Esse é o ensino; é uma coisa que Ele realiza. A santificação não é determinada por mim e por você - "E a si mesmo se entregou por ela, para (a fim de) a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra". O primeiro princípio que devemos entender é que a santificação é primária e essencialmente uma coisa que o Senhor Jesus Cristo faz para nós. Ele tem os Seus meios para fazê-lo. Naturalmente, a santificação inclui obediência da nossa parte. Mas você não precisa colocar aí a sua ênfase principal. A decisão pela santificação não é nossa; É dEle. Foi tomada na eternidade, antes da fundação do mundo. É Sua atividade, Sua operação; e, tendo morrido por você, Ele o fará. Resista a Ele, e o risco será seu. Ele levará cada um dos filhos, que foram chamados, para aquela glória final e sempiterna. Como Hebreus o expressa, se Ele não tratar você deste modo, significará que você é um "bastardo", e não um filho legítimo (Hebreus 12:5-11).

Esse é, pois, o grande princípio que constitui a base deste ensino apostólico. Como Cristo o leva a efeito? Veja-se a resposta na palavra "santificar"; "como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para a santificar". Esta palavra "santificar" é empregada de muitas maneiras na Bíblia, mas o seu sentido primário é, "ser separado" ou "separar"; "ser separado para Deus, para Sua posse peculiar e para Seu uso". Você verá em Êxodo 19, por exemplo, que o monte no qual Deus se encontrou com Moisés e lhe deu os Dez Mandamentos, foi "santificado" desse modo. É chamado "monte santo" porque foi separado. Não houve alteração na montanha, mas foi separada para os propósitos de Deus, para o uso de Deus, para ser possessão peculiar de Deus. Os vasos que eram usados no cerimonial do templo eram igualmente santificados ou separados. Não houve mudança material nos copos e nos pratos, todavia como deviam ser utilizados somente no templo e para o serviço de Deus, não podiam ser empregados no uso comum. Ser santificado significa ser separado para Deus e para o Seu uso e propósito especial, como Sua possessão peculiar. Portanto, somos um "povo para Sua possessão pessoal".

Que é que vem Primeiro, a Comunhão ou a Doutrina (Verdade)? - Lloyd-Jones


Que é que esta passagem ensina? (Ef 4.1-16). Há muitos que pensam que o ensino aqui é que somos exortados a ter comunhão uns com os outros, sejam quais forem as nossas idéias da fé cristã, a fim de que, em última instância, cheguemos a uma unidade de fé e crença. Há alguns anos um pregador evangélico expressou-o mais ou menos assim: "Eu sempre costumava pensar que você não pode ter comunhão com alguém, a menos que concorde com ele sobre doutrina. A minha posição sempre fora que, primeiramente, você tem que estar de acordo acerca da doutrina e da sua idéia de fé e, depois, com base nisso, poderá ter comunhão com as pessoas". Mas ele continuou e disse que tinha feito uma grande e impressionante descoberta quando releu este capítulo quatro da Epístola aos Efésios. Ele observou pela primeira vez na vida que o apóstolo começa exortando à comunhão: "Procurando guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz" (versículo 3). Disse ele: "Descobri que ali você começa com a comunhão, e que só mais tarde, no versículo 13, o apóstolo diz: "Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a varão perfeito, à medida da estatura completa de Cristo". Assim, à luz disso, ele agora estava propondo ter comunhão com os que discordavam dele teologicamente, com os que eram liberais em sua perspectiva doutrinária, e com os outros. Ele ia fazer isso porque acreditava que era por meio dessa comunhão que podia esperar chegar finalmente a um acordo doutrinário. Foi uma inversão completa da posição que ele defendia antes. Ele se sentia convicto de erro, achava que estivera pecando. E agora exorta os cristãos a porem em prática a sua nova idéia sobre

0 ensino de Efésios, capítulo 4. É trabalhando juntos, evangelizando juntos, orando juntos e tendo comunhão uns com os outros, declara ele, que finalmente chegaremos à unidade da fé.

A questão crucial que temos que considerar é se essa parte das Escrituras ensina isso ou não. De novo o contexto é absolutamente vital e, portanto, devemos começar fazendo uma análise geral da passagem. O tema, vê-se com toda a clareza, é a unidade da Igreja. Na verdade, esse é o tema do apóstolo desde o início da Epístola. De muitas maneiras, o versículo chave para o entendimento da carta toda é 1:10: "De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra; nele, digo". O apóstolo passa a mostrar como Deus esteve fazendo isso, trazendo o judeu e o gentio para es¬tarem juntos neste novo corpo, que é a Igreja, e depois chama a aten¬ção em particular para este tema na parte que estamos examinando.

Uma análise geral dessa porção revela o seguinte: nos versículos 1 a 3 Paulo faz um apelo geral a favor da unidade; nos versículos 4 a 6 ele descreve a natureza da unidade; nos versículos 7 a 12 ele descreve a variedade na unidade e os meios empregados por Deus para preservá-la; finalmente, nos versículos 13 a 16, ele descreve a unidade completa, ou a sua final e plena concretização e o seu ornamento. Isto ele apresenta tanto positiva como negativamente.

A chave para a exposição completa do capítulo 4 é a palavra "pois" do versículo 1. Ela nos direciona de volta aos três primeiros capítulos desta grande Epístola, e acentua que o tema da unidade é algo que decorre como conseqüência do que se passou antes. Isto, naturalmente, é típico do método neotestamentário de tratar de questões de conduta prática. Seu ensino essencial é que a conduta é sempre resultante da verdade e do ensino. A prática e o compor¬tamento são o resultado da aplicação da doutrina já estabelecida. E é precisamente isso que o apóstolo faz aqui. "Rogo-vos, pois", diz ele, "Rogo-vos, pois, eu, preso do Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados". A exortação que se segue é feita à luz de tudo o que ele estivera dizendo nos três primeiros capítulos.

É claro, então, que qualquer que interprete esta porção como dizendo que o apóstolo começa com a comunhão e depois passa para a doutrina, está fundamentalmente errado: a sua exposição fica toda viciada logo de início pela simples razão que ele começa com o versículo 3 e ignora os versículos 1 e 2. A doutrina exposta nos capítulos 1 e 3 já é a base e o substrato de tudo o que o apóstolo tem para dizer acerca da unidade. Ele não começa com a unidade e depois parte para a doutrina; ele se dedica ao tema da unidade porque já estabelecera a sua doutrina.

Nao seja inútil na batalha

17 Setembro 2010

Não Seja Inútil na Batalha – Martyn Lloyd-Jones