quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Nos Lugares Celestiais - Martyn Lloyd-Jones


“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo” – Efésios 1:3

Já temos visto que muitos erram em todo o seu pensamento sobre o cristianismo porque partem de um ponto de vista errado. Eles têm uma concepção materialista do cristianismo, e não se dão conta de que a fé cristã é positivamente extra-mundo. A consequência é que eles ficam constantemente em dificuldade. Há muitos que dizem que não podem ser cristãos por causa do estado do mundo e das coisas que estão acontecendo nele. O argumento deles é que, se Deus é amor, que promete abençoar todo aquele que O buscar, os cristãos não deveriam sofrer – não deveriam adoecer ou sofrer adversidade. Temos aí um claro exemplo daqueles mal-entendidos resultantes da não percepção de que as bênçãos advindas ao cristão são "espirituais" e estão "nos lugares celestiais”.

Mas devemos examinar este assunto de maneira mais minuciosa. Nem nesta Epístola, nem em qualquer outro lugar, o apóstolo sobe a maiores alturas do que neste versículo particular, onde ele nos eleva aos “mais altos céus” e nos mostra o ponto de vista cristão em sua maior glória e majestade. De muitas maneiras a expressão "nos lugares celestiais” é a chave desta Epístola, em particular, onde ela ocorre não menos que cinco vezes. Acha-se neste versículo 3, e também no versículo 20 deste capítulo primeiro, onde Paulo escreve sobre o fato de Cristo estar assentado à mão direita de Deus nos lugares celestiais. Alguns comentaristas não gostam da palavra “lugares”, pois acham que ela tende a localizar o conceito. Contudo, não basta dizer “celestiais”. Vê-se a mesma expressão também no capítulo 2, versículo 6, e no versículo 10 do capítulo 3. A última referência é no versículo 12 do capítulo 6, na declaração: “Não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas sim contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais”. É óbvio que o apóstolo não repetiria esta frase, se ela não tivesse um significado real e profundo; e ela é, repito, uma das apresentações mais gloriosas da verdade cristã. Se tão-somente pudéssemos enxergar como nós estamos em Cristo nos lugares celestiais, isso faria uma revolução em nossas vidas, e mudaria toda a nossa maneira de ver.

Ao empregar a frase “nos lugares celestiais”, o apóstolo emprega uma expressão descritiva que, era muito popular no século primeiro. Era uma concepção judaica típica. Ele faz uso da mesma idéia na Segunda Epístola aos Coríntios, capítulo 12, onde nos dá um pouco de biografia, e no versículo 2 diz: conheço um homem em Cristo que há catorze anos (se no corpo não sei, se fora do corpo não sei: Deus o sabe) foi arrebatado até o terceiro céu”. A expressão “terceiro céu” é exatamente idêntica a “lugares celestiais”, nos termos em que é empregada nesta Epístola aos Efésios. Segundo essa concepção, o primeiro céu é o que se pode descrever como o céu atmosférico, onde ficam as nuvens. O segundo céu pode ser descrito como o céu estelar; é aquela parte das regiões superiores onde estão colocados o sol, a lua e as estrelas. Essa parte está muito mais distante de nós do que as nuvens ou o céu atmosférico, e os números astronômicos utilizados pelos cientistas lembram-nos que os céus estelares estão a uma tremenda distância de nós.

Contudo, há um “terceiro céu”, que não se trata do céu atmosférico nem do céu estelar. Trata-se da esfera em que Deus , de maneira muito especial, manifesta a Sua presença e a Sua glória. É também o lugar em que o Senhor Jesus Cristo, em Seu corpo ressurreto, habita. Além disso, é o lugar em que os “principados e potestades” aos quais o apóstolo se refere no capítulo 3 têm a sua habitação; na verdade, é o lugar a respeito do qual lemos no capítulo 5 de Apocalipse, onde a glória de Deus se manifesta. Lemos ali a respeito de Cristo em Seu corpo glorificado, "um Cordeiro, como havendo sido morto”, cios brilhantes espíritos angélicos, dos animais c dos "vinte e quatro anciãos”. Todos esses dignitários angélicos e poderes têm sua habitação ali. E, ainda mais maravilhoso e glorioso, ali também estão “os espíritos dos justos aperfeiçoados”. Os que morreram no Senhor, “em Cristo”, estão ali com – Cristo neste momento. Estão nos “lugares celestiais”, no “terceiro céu”, naquele domínio em que Deus manifesta algo da sua glória eterna.

Agora podemos passar a considerar o sentido da expressão “nos lugares celestiais” à luz destas cinco referências a ela nesta Epístola aos Efésios. O Senhor Jesus Cristo, ressurreto dentre os mortos, já está naquele domínio em Seu corpo glorificado, como disso nos faz lembrar o versículo 20. O que, portanto, o apóstolo está dizendo é que o que temos, e tudo o que gozamos corno cristãos, vem de Cristo, que está naquela esfera, e por meio dEle. Mais que isso, pelo novo nascimento, por nossa regeneração, somos ligados ao Senhor Jesus Cristo, e nos tornemos partícipes de Sua vida e de todas as bênçãos que dEle vêm. O ensino do apóstolo é que, nos estamos "em Cristo”. Somas parte de Cristo; estamos tão ligados a Ele por esta união orgânica mista que tudo quanto lhe, seja próprio, nos é próprio espiritualmente. Assim como Ele está nos lugares celestiais, assim também nós estamos nos lugares celestiais. As bênçãos que gozamos como cristãos são bênçãos "nos lugares celestiais” porque elas toquem de Cristo que lá está.

É minha opinião que aqui vemos mais claramente do que em qualquer outro lugar a profunda mudança a que alguém sc sujeita por tornar-se cristão. Não se trata de uma mudança superficial, não é apenas que vestimos uma roupa de respeitabilidade ou decência ou moralidade, não é um melhoramento na superfície ou uma mudança temporal. É tão profunda como o fato de que somos tomados de um reino e colocados em outro. Assim corno Deus tirou o Senhor Jesus Cristo do túmulo, e dentre os mortos, e O colocou à Sua mão direita nos lugares celestiais, assim o apóstolo ensina que a mudança pela qual passamos em nosso novo nascimento e regeneração leva a esta correspondente mudança em nós. É a fim de que os cristãos efésios possam entender isso mais completamente que Paulo ora por eles: para que "tendo iluminados os olhos do vosso entendimento... saibais qual seja a esperança da sua vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos; e qual a sobreexcelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força de seu poder, que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dos mortos, e pondo-o h sua direita nos céus” (VA: “nos lugares celestiais”). Essa, e nada menos que essa, é a verdade ‘acerca do cristão. Dada a limitação das nossas capacidades, em conseqüência da nossa condição finita e do nosso pecado, achamos muito difícil apossar-nos destas coisas; mas tudo o que esta Epístola aos Efésios procura fazer é concitar-nos a lutar para que tornemos posse delas, a orar pedindo iluminação para podermos entender.

A dificuldade surge pelo fato de que o cristão é, necessariamente, num certo sentido, dois homens em um ao mesmo tempo. É óbvio (não é?) que os cristãos simplesmente não podem entender nada destas questões O apóstolo expõe isso claramente no capítulo 2 da Primeira Epistola aos Coríntios, onde ele descreve a diferença entre o homem “natural” e o "espiritual” Ele escreve “O que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido”. “Discernir” (VA: julgar) significa entender. O cristão, diz Paulo, entende todas as coisas, mas ele mesmo não é entendido por ninguém Ele é, por definição, um homem que o incrédulo não tem a mínima possibilidade de entender. Portanto, um dos melhores testes que podemos aplicar a nós mesmos c descobrir se as pessoas acham difícil entender-nas porque somos cristãos Se a afirmação de Paulo é verdadeira, o cristão deve ser um enigma para todos os não cristãos. Aquele que não é cristão acha que há algo estranho quanto ao cristão, este não é como os outros, é diferente É como tem que ser, por definição, porque o cristão tem esta vida celestial e pertence a este domínio celestial. Entretanto, ele não somente escapa ao entendimento do não cristão: num sentido é certo dizer que ele próprio não pode entender a si mesmo. Ele tornou-se um problema para si próprio, por causa dessa nova natureza que há nele..“Vivo, não mais eu, mas Cristo vive em num” (Gálatas 2:20). Eu sou eu e não sou eu.

Analisemos isto um pouco mais. O cristão tem duas naturezas. Num sentido ele ainda é um homem natural. O que por nascimento ele herdou de seus antepassados, ele ainda possui. Ele ainda está neste mundo e nesta vida, como todos os demais. Ele tem que viver, tem que ganhar a vida e fazer várias coisas da mesma maneira que os outros. Ele ainda vive a vida secular, a vida “normal”, a vida vivida em termos do intelecto e do entendimento. Ele estuda vários assuntos e, como todos os demais interessa-se pelas condições políticas e sociais; ele tem que comprar e vender como todos os outros. Ele pode estudar artes, pode interessar-se por música. Essa é a sua vida "normal”, sua vida secular, sua mentalidade, coisas que ele compartilha com os não cristãos. Na verdade, podemos ir além e dizer que ele ainda experimenta falhas em vários aspectos, ele tem consciência do pecado Por vezes ele se olha e indaga se é diferente das outras pessoas, parece idêntico a elas. Ele falha, faz coisas que não devia fazer, ainda se sente culpado do pecado. Continua parecido com o homem natural. Se vocês tiverem apenas uma idéia superficial do cristão, poderão muito bem chegar à conclusão de que na verdade não há diferença alguma entre ele e qualquer outra pessoa. Mas isso não está certo, pois essa não é toda a verdade sobre ele. Em acréscimo a tudo isso, há outra natureza, há uma outra coisa que ocorre; e é esta outra coisa que faz do cristão um enigma para os outros e para si mesmo Num sentido ele é um homem natural, porém ao mesmo tempo é um homem espiritual O apóstolo contrasta o homem natural com o homem espiritual, porque o que há de grande acerca do cristão é que ele tem esta natureza espiritual adicional Esta é a característica principal, e é o furor dominante em sua vida O cristão, mesmo na pior condição, sabe que é diferente do incrédulo.

Expondo isso em sua expressão mais baixa, o cristão continua sendo culpado de pecado, mas o cristão não aprecia o pecado como apreciava, e como os outros apreciam. Há algo diferente até quanto ao seu pecado, graças a este princípio espiritual que há nele, a esta natureza espiritual, a esta consciência de uma nova vida, de uma vida que pertence a uma ordem diferente e a uma esfera diferente. É muito difícil expor isto em palavras; há algo evasivo nisso tudo e, todavia, há algo que o cristão sabe. É essencialmente subjetivo, embora resulte da fé na verdade objetiva. Noutras palavras, a menos que você sinta que é cristão, fica uma dúvida se você o é. A menos que lhe tenha acontecendo algo existencialmente, experimentalmente, a menos que lhe tenha acontecido algo na esfera da sua sensibilidade, você não é cristão.

Muitos no presente correm o perigo de considerar a fé de maneira tão puramente objetiva que pode tornar-se antibíblica. Eles dão toda a sua ênfase à subscrição de certos credos e à aceitação de certas formulações da verdade Mas isso pode não passar de assentimento intelectual. Ser cristão significa que Deus, mediante o Espírito, está operando em sua alma, deu-lhe um novo nascimento e colocou dentro de você um principio da vida celestial. E você tem que saber disso. Só você pode sabê-la. Você, necessariamente, tem consciência deste algo mais, desta diferença, deste poder que está agindo em você, deste elemento perturbador, como se pode provar. Você necessariamente tem consciência até de um novo conflito em sua vida. A pessoa não cristã é somente uma pessoa; a pessoa cristã é duas. Para usar a terminologia escriturística, o não cristão não é nada senão o “velho homem”. O cristão, porém, tem também um "novo homem” E entre o novo homem e o velho não há acordo; há uma tensão entre o velho homem e o novo, e há conflito – “A carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne” (Gálatas 5.17). O próprio estágio inferior da verdadeira experiência cristã é aquele estágio no qual você está cônscio justamente desse conflito. Você ainda não sabe o que é ser “cheio da plenitude de Deus”; você sabe pouco, se é que sabe algo, de uma comunhão pessoal e direta com Cristo; mas sabe que há algo em você que o inquieta, sabe que há, por assim dizer, outra pessoa em você, que há um conflito, que há quase que esta personalidade dual, esta dualidade por assim dizer. Estou tentando comunicar o fato da consciência que o cristão tem das duas naturezas. Ele está cônscio das duas naturezas porque ele está “em Cristo”, e Cristo está “nos lugares celestiais”. Ele recebeu esta vida de Cristo, e tudo o que ele tem deriva de Cristo; e isso é tão diferente de tudo mais, que o cristão tem consciência de que tem duas naturezas.

Pois bem, não é só certo dizer que o cristão tem duas naturezas; também tem dois interesses, porque vive em dois mundos. O cristão é cidadão de dois mundos ao mesmo tempo. Pertence a este mundo, tem nele a sua existência; e, contudo, sabe que pertence a outro mundo tão definidamente como a este. Isso é conseqüência inevitável do fato de que ele tem duas naturezas. Daí dizer o apóstolo que o cristão é alguém que foi transferido “da potestade das trevas para o remo do Filho do seu amor” (Colossenses 1:13) – ele foi transferido, transportado, e recebeu uma nova posição. E essa mudança é, num sentido, paralela a que se deu com o próprio Cristo. Deus manifestou o Seu poder quando ressuscitou a Cristo dentre os mortos e O colocou à Sua direita nos lugares celestiais. Com efeito, algo similar aconteceu com todos os cristãos. Não ficamos onde estávamos, fomos transportados, fomos transferidos de um lugar, de um domínio para outro, de um reino para outro, de um mundo para outro. Este é um elemento vital da experiência total do cristão.

Não significa que o cristão sai do mundo. Historicamente muitos cristãos caíram nesse erro, e diziam: visto que sou cristão não pertenço ao Estado. Há cristãos que dizem que não se deve votar nas eleições parlamentares, e que não se deve ter nenhum interesse pelas atividades do mundo. Mas isso não se harmoniza com o ensino das Escrituras, pois o cristão ainda é cidadão deste mundo e pertence à esfera secular. Ele sabe que este mundo é de Deus, e que nele Deus tem um propósito para ele. Ele sabe que é cidadão do país a que pertence, e está ciente de que tem as suas responsabilidades. A verdade é que, desde que é cristão, terá que ser um cidadão melhor do que ninguém no território. No entanto, ele não para aí, ele sabe que também é cidadão de outro reino, de um reino que não se pode ver, um reino que não é deste mundo. Todavia, ele está neste mundo, e o outro reino colide com ele. O cristão sabe que pertence a ambos os remos Assim, isto vem a ser um teste da nossa profissão de fé como cristãos. Sabemos das exigências que a nossa terra natal nos faz, e também sabemos das exigências do reino celestial. Nosso desejo é não transgredir as leis da terra, e maior ainda é o nosso desejo de não ofender o “Rei eterno, imortal, invisível” (1 Timóteo 1:17, VA, ARA) que habita aquele outro reino e que é o Senhor.

O apóstolo prossegue e diz, porém, que não somente pertencemos àquele domínio celestial; no versículo 6 do capítulo 2 de Efésios ele faz uma declaração que soa tão espantosa quanto impossível Diz ele que Deus “nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus ”. Significa nada menos que eu e você, em Cristo, estamos assentados neste momento em lugares celestiais. Estamos lá; ele não está dizendo que vamos estar lá, e sim, que estamos lá. Mas como se pode conciliar isso com o fato de que ainda estamos neste mundo limitado pelo tempo, com toda a sua confusão e contradição? Como podem estas duas coisas ser verdadeiras ao mesmo tempo? A princípio soa paradoxal; e, contudo, é gloriosamente verdadeiro quanto ao cristão. Espiritualmente estou neste momento no céu, “em Cristo”, num sentido como sempre estarei; mas o meu corpo continua vivendo na terra, ainda sou deste mundo limitado pelo tempo, O meu espírito foi redimido em Cristo, como sempre redimido será; porém o meu corpo ainda não foi redimido, e eu, com todos os outros cristãos, estou “esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo” (Romanos 8:23). Ou, como Paulo o expressa, escrevendo aos Filipenses, a nossa situação neste mundo limitado pelo tempo é que “a nossa cidade está nos céus, donde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas” (3:20-21). Em meu espeto já estou lá, mas ainda estou na terra na carne e no corpo.

O aspecto glorioso desta verdade é que, devido eu estar “em Cristo”, o meu corpo vai ser emancipado; a adoção, a redenção dos nossos corpos vai acontecer; virá o dia em que eu estarei nos lugares celestiais, não somente em meu espírito, mas também em meu corpo Isso é absolutamente certo. Seremos transformados, os nossos corpos serão glorificados, e estaremos sem nenhum pecado, culpa ou ruga ou mancha. Em espírito e no corpo estaremos com Ele e O veremos como Ele é; na totalidade do nosso ser e das nossas personalidades estaremos naqueles lugares celestiais.

A dedução que tiramos do ensino do apóstolo foi exposta perfeitamente por Augustus Toplady, quando escreveu:



Mais felizes, mas não mais seguros,

Os espíritos glorificados no céu.



"Os espíritos glorificados no céu”, os cristãos que partiram e estão com Cristo são mais felizes do que nós. Isso porque nós, que ainda estamos nesta vida, estamos “sobrecarregados”, e, por isso, “gememos, desejando ser revestidos da nossa habitação, que é do céu” (2 Coríntios 5:2). Os cristãos que pararam, já não têm que combater o pecado na carne, e no mundo; disso eles estão completamente livres; isso acabou, no que se refere a eles; porém nós continuamos na carne, no corpo, continuamos lutando, continuamos gemendo. Porque partiram, eles são “mais felizes”; mas não estão mais seguros. Não estão “em Cristo” mais do que nós. Eles estão lá agora porque estavam “em Cristo” quando estavam aqui; nós, mesmo agora, estamos “em Cristo” e estamos assentados espiritualmente junto com eles nos lugares celestiais – com eles e com Cristo, neste exato momento. Como nos lembra o autor da Epístola aos Hebreus, “não chegastes ao monte palpável, aceso em fogo, e à escuridão, e às trevas, e à tempestade, e ao sonido da trombeta, e à voz das palavras, a qual os que a ouviram pediram que se lhes não falasse mais, porque não podiam suportar o que se lhes mandava: se até um animal tocar o monte será apedrejado. E tão terrível era a visão que Moisés disse: estou assombrado, e tremendo. Mas chegaste ao monte de Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, e aos muitos milhares de anjos; à universal assembléia e Igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus, e a Deus, o juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados; e a Jesus, o Mediador duma Nova Aliança, e ao sangue da aspersão, que fala melhor do que o de Abel” (Hebreus 12:18-24). Estamos lá agora em nossos espíritos; estaremos finalmente lá em nossos corpos também.

Isso nos leva à percepção de que o cristão não somente tem duas naturezas, e duas existências, mas também, necessariamente, tem duas perspectivas. O cristão vê a vida e o mundo, e num sentido os vê como todo o mundo os vê; todavia, ao mesmo tempo ele os vê diferentemente. Como cristãos não olhamos para as coisas como o mundo olha, mas o fazemos como pessoas pertencentes aos domínios celestiais; vemos tudo diferentemente, vemos tudo do ponto de vista espiritual. Os homens e as mulheres não cristãos consideram o estado em que o mundo se encontra, as guerras e os tumultos, a causa de todas essas coisas e a possibilidade de outra guerra mundial. Consideram as sugestões quanto ao que se pode fazer, e se é certo ou errado ter exércitos e engajá-los na luta. Estas coisas requerem atenção. O cristão como cidadão deste domínio visível, tem que chegar a decisões, e tem que ser capaz de dar os motivos das suas decisões.

Com relação à Igreja Cristã, num sentido ela não tem nada a ver com os problemas do mundo, e não deve gastar muito tempo com eles. A tarefa primordial da Igreja é apresentar a perspectiva, o ponto de vista espiritual. Ela vê a causa de todos os problemas de maneira inteiramente diversa. A visão mundana enxerga a causa da guerra como uma questão de “equilíbrio do poder” entre as nações e em termos de como lidar com isso de maneira a mais eficiente. Isso está certo, dentro dos seus limites; porém não é esse o problema fundamental que, como Paulo nos ensina no último capítulo desta Epístola, consiste em que “não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas sim contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais” (6:12). O cristão sabe que o mundo está como está devido ao pecado, devido ao diabo; ele vê todas as coisas com uma nova perspectiva e com um novo entendimento. Ele sabe que estas coisas são apenas a manifestação do poder satânico; e que, em última análise, o conflito deste mundo é um conflito espiritual, não um conflito material. Os problemas do mundo não são meramente resultantes da colisão de concepções materiais apenas; são produzidos pelos poderes do inferno e de satanás lutando contra o poder de Deus. Em contraste com a visão que o mundo tem, a visão do cristão é muito mais profunda. O cristão não vê as coisas meramente ao nível horizontal; ele as vê perpendicularmente também. Para ele há sempre este elemento básico – “sub specie aeternitatis”. *

Ele sabe, ademais, que a única maneira de lidar com estes problemas só pode ser espiritual. O cristão sabe que Deus tem duas maneiras de tratar destes problemas que resultaram das atividades do diabo, da queda do homem e do pecado. A primeira é que Deus restringe o mal, e o faz de muitas maneiras. Primeiro o fez, em parte, dividindo o mundo em países e estabelecendo limites para cada um deles. Isso Ele fez ordenando que houvesse reis e chefes de Estado, magistrados e autoridades. Nunca nos esqueçamos de que as potestades que existem foram ordenadas por Deus (Romanos 13 1). Foi Deus que ordenou os governos e os sistemas de governo. É por isso que o cristão é exortado a honrar o rei, os senhores e todos os que estão revestidos de autoridade. Dessa maneira Deus mantém o mal dentro de certos limites, restringindo o mal. Ele faz isso por meio dos governos, pelo uso dos estadistas, das conferências internacionais e pelo uso de diversos outros meros No entanto eles são somente negativos, simplesmente restringem o mal. A força policial pode impedir que um homem faça certas coisas más, porém nenhuma força policial pode transformar alguém num homem bom. O mesmo aplica-se também aos governos. Também se aplica esta verdade à cultura, à educação e a tudo quanto esteja destinado a melhorar os costumes e a tornar a vida ordeira, harmoniosa e agradável. Todas essas agências fazem parte do mecanismo de Deus para refrear o pecado e as suas manifestações e conseqüências. Entretanto, elas são negativas. Um homem altamente civilizado nunca fará certas coisas; mas isso não significa necessariamente que ele é um bom homem. É certo que a cultura não faz dele um homem espiritual.

Mas existe este outro aspecto positivo: Deus trata dos problemas do mundo de maneira positiva e curativa, a saber, em Cristo e por meio de Cristo e Sua grande obra de salvação. Ele tira um homem deste “presente mundo mau” em espírito, e o coloca dentro do reino de Cristo Coloca dentro dele um novo principio que não somente lhe tira a disposição para pecar, mas também lhe dá amor à santidade O homem se torna positivamente bom e passa a ter “fome e sede de justiça" Ele se torna semelhante ao Senhor Jesus Cristo Há um novo remo dentro “dos remos deste mundo"; é o reino de Deus Essa é a única cura. O remo de Deus finalmente vai ser tão grande que o pecado será destruído e banido, e não mais existirá. O cristão, e somente ele, vê o plano e o propósito de Deus. Os estadistas do mundo, os não cristãos, na melhor das hipóteses nada sabem a respeito, eles só vêem a situação em termos do visível e daquilo que está diretamente diante deles.

Estas duas maneiras de ver também são inteiramente diversas com respeito ao futuro. O incrédulo liga a sua fé às conferências. E imagina que se tão-somente os homens pudessem ter uma Conferência de Mesa Redonda e acordassem nunca mais fazer uso da bomba atômica ou da bomba de hidrogênio, o mundo se tornaria mais ou menos perfeito. Mas, ao que parece, isso nunca se efetuará. Ele não pode ir além da sua visão horizontal, ele nada sabe deste elemento espiritual superior. Ele a credita na perfectibilidade do homem e na evolução de toda a raça humana. Ele acredita que o homem ficará cada vez melhor, à medida que se torne mais instruído, e que finalmente abolirá a guerra.

Ora, infelizmente isso nunca acontecerá por causa deste elemento espiritual em conflito. Conquanto o homem tenha pecado em sua natureza, ele não somente será culpado do pecado individualmente, mas também numa escala nacional e mundial. Porque a mente de uma multidão sena diferente da mente de um indivíduo”. Graças a Deus, há outra mensagem; e a maior tragédia do mundo é que a Igreja, em vez de pregar a sua verdadeira mensagem, está pregando uma mensagem terrena, humana, carnal. Não teria a Igreja algo melhor para pregar do que apelar para os estadistas para que resolvam os problemas? Isso é realmente uma negação da fé cristã, e revela uma abismal ignorância dos "lugares celestiais”. Como cristãos, temos outra maneira de ver, temos algo inteiramente diverso. As preleções sobre a temperança nunca tornarão sóbrios os homens, nem as estatísticas das perdas de guerra porão fim à guerra. Sabemos que o problema é espiritual, e que a solução tem que ser igualmente espiritual Como é de satanás que basicamente vêm os maus desejos, as paixões e as cobiças, assim é de Cristo, e dEle somente, mediante o Espírito, que vem o poder para sobrepujá-los E Ele virá não somente para o indivíduo, graças a Deus, Ele virá para o mundo todo. O cristão sabe que Cristo, que agora está nos lugares celestiais, voltará a este mundo em forma visível, cavalgando as nuvens do céu e rodeado pelos santos anjos e pelos santos que já estão com Ele; e os que estiverem na terra quando Ele vier serão transformados e serão elevados nos ares para encontrar--se com Ele, e estarão todos "sempre com o Senhor". Ele derrotará os Seus inimigos, e banirá o pecado e o mal. Seu reino se estenderá "de mar a mar” (Salmos 72:8; Zacarias 9:10) e Ele será aclamado como o Senhor por todas as coisas “que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra” (Filipenses 2:10).

Isso é otimismo cristão, e significa que sabemos que somente Cristo pode vencer, e vencerá. Você está “nos lugares celestiais”, você está ciente das duas naturezas que há em você, está ciente de que pertence a duas esferas? Tem você esta nova visão espiritual da guerra e da paz e dos problemas do mundo? Você vê tudo pela perspectiva do céu, de Deus e do Senhor Jesus Cristo, assentado com Ele nos lugares celestiais? Bendito seja o nome de Deus!

terça-feira, 9 de novembro de 2010

ONDE ESTÁ Ó VANGLORIA



- ( Rom 3.27-28 ) -

Onde, pois, a vanglória? Tendo uma vez privado todos os homens da confiança nas obras, com razões suficientemente conclusivas, o apóstolo agora os reprova em face de sua vaidade. Sua exclamação, neste ponto, era indispensável, pois teria sido insuficiente, neste caso, que lhes ministrasse seu ensino, se o Espírito Santo não bombardeasse o nosso orgulho com fulminante veemência, com o fim de lançá-lo abaixo. A vanglória, diz ele, é, sem sombra de dúvida, de todo excluída, visto não podermos produzir nada por nós mesmos que mereça a aprovação ou o louvor de Deus. Contudo, se mérito é uma questão de vanglória, quer a chamemos de 'mérito côngruo' ou 'mérito condigno', por meio do qual alguém pode reconciliar Deus consigo mesmo, vemos que ambos são aqui destruídos. Paulo não está preocupado com a diminuição ou moderação do mérito, senão que não deixa ficar uma só partícula dele. Além disso, se a fé remove a ostentação das obras, de tal forma que não pode ser proclamado puramente sem privar totalmente os homens de todo e qualquer louvor, ao atribuir tudo à misericórdia de Deus, segue-se que obra alguma é de algum valor para obter-se a justiça.

Das obras? Em que sentido o apóstolo nega, aqui, que nossos méritos estão excluídos pela lei, quando, antes, provou nossa condenação pela lei? Se a lei entrega a todos nós à morte, que glória poderíamos obter dela? Ao contrário, não priva ela, a todos nós, de nos gloriarmos, e não nos cobre ela de opróbrio? Ele demonstrou, pois, que o nosso pecado está exposto pelo juízo da lei, visto que todos nós deixamos de observá-la. O que ele tem em mente, aqui, é que, se a justiça consistisse na lei das obras, então nossa vanglória não seria excluída; porém, visto que ela procede da fé somente, então não há nada que possamos reivindicar como nosso, porquanto a fé recebe tudo de Deus, e não apresenta nada senão uma humilde confissão de carência.

Deve-se observar cuidadosamente este contraste entre fé e obras, porquanto as obras são aqui mencionadas universalmente sem qualquer adição. Ele, pois, está se referindo não apenas a observâncias cerimoniais, nem especificamente a algumas obras externas, porém inclui todos os méritos provenientes das obras que porventura possam imaginar-se.

O termo lei é aqui impropriamente aplicado à fé, porém isto de forma alguma obscurece o significado do apóstolo. Ele tem em mente que, quando se busca o domínio da fé, toda e qualquer ostentação posta nas obras é destruída. E como se estivesse dizendo que a justiça procedente das obras é de fato recomendada na lei, mas aquela que procede da fé tem sua própria lei, a qual não deixa espaço algum para a justiça procedente das obras.

Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé. O apóstolo expõe sua principal proposição como sendo, neste ponto, incontroversível, e adiciona uma explicação, pois quando as obras são expressamente excluídas, muita luz é jorrada sobre a justificação pela fé. Por esta razão, nossos oponentes despendem os maiores esforços em suas tentativas para envolver a fé nos méritos das obras. Na verdade concordam que o homem é justificado pela fé, mas não só pela fé. De fato, concedem ao amor o poder da justificação, embora, ao falarem, a atribuem à fé. O apóstolo, porém, afirma nesta passagem que a justificação é gratuita, de tal modo que ela não pode, de forma alguma, ser associada com os méritos das obras. Já expliquei por que ele se refere às obras como sendo da lei, e ao mesmo tempo já provei que é um completo absurdo restringir as obras às observâncias cerimoniais. E igualmente um sério equívoco entender pelo termo obras da lei aquelas obras provenientes da letra, as quais são realizadas sem o Espírito de Cristo. Ao contrário, o termo lei que o apóstolo adiciona é equivalente ao termo obras meritórias, visto referir-se à recompensa prometida na lei.

Quando Tiago afirma que o homem não é justificado só pela fé, mas também pelas obras, isto de forma alguma contradiz o conceito precedente. A melhor forma de conciliar os dois conceitos é levando em conta a natureza do argumento utilizado por Tiago. A questão consiste não em como o homem pode obter a justiça para si mesmo na presença de Deus, e, sim, como pode provar aos seus iguais que ele está justificado.Tiago está refutando os hipócritas que faziam um fútil estardalhaço para provar que tinham fé. Portanto, é uma grosseira falta de lógica não admitir que o termo justificar é tomado por Tiago em sentido distinto do de Paulo, visto que ambos tratam de temas também distintos: O termo fé está também sujeito a vários significados, e tal ambigüidade deve ser levada em conta para um correto juízo sobre a questão. Tiago, como podemos averiguar do contexto, não pretendia dizer nada mais, nada menos, senão que o homem não deve ser tido por justo por meio de uma fé fictícia ou morta, a menos que ele prove sua justiça por meio de atos. Sobre esta questão, vejam-se minhas Instituías [Livro III.iii.12].

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Não sejais sábios aos vossos próprios olhos (Rm 12.16).

O que o apóstolo diz no grego é mais significante e apropriado à luz da comparação: "Não pensar demais nas coisas por demais elevadas." O que ele tem em mente é que o cristão não deve desejar com obsessiva ambição aquelas realizações pelas quais ele exceda a outrem, nem alimentar sentimentos de superioridade; mas, ao contrário, ponderar com discrição e mansidão. E são estas que fazem a diferença na presença do Senhor, e não o espírito de soberba ou de desdém demonstrado contra os irmãos.

O apóstolo adiciona uma ordenança muito oportuna, à qual já fizera menção, porquanto nada é mais danoso para destruir a unidade cristã do que nos exaltarmos e aspirarmos uma posição mais elevada que a dos outros, sentindo-nos superiores aos demais. Tomo a palavra humilde no sentido neutro, a fim de completar a comparação. Portanto, toda ambição e elação do espírito, as quais se ocultam dentro do nome de magnanimidade, são aqui condenadas. A moderação é a principal virtude dos crentes; ou, antes, submissão, que sempre prefere atribuir honra a outrem do que recebê-la para si próprio.

A outra afirmação do apóstolo se acha estreitamente  conectada a esta. Nada inflama mais o espírito do que uma exagerada opinião de nossa própria sabedoria. Portanto, ele quer que ponhamos esta opinião de lado, ouçamos os outros e nos sujeitemos aos seus conselhos. Erasmo traduziu cfipovíuous por arrogantes, mas tal tradução é forçada e sem sentido. Paulo, neste caso, estaria repetindo a mesma palavra duas vezes sem qualquer ênfase. O antídoto mais eficaz para a cura da arrogância é suprimir uma opinião demasiadamente exagerada acerca de nossa própria sabedoria.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010


Onde o Pecado Transbordou – João Calvino


- (Rm 5. 20,21) -

Sobreveio a lei para que o delito sobressaísse. O que a apóstolo afirma aqui depende de sua observação anterior, ou seja: que o pecado existiu antes que a lei fosse promulgada. Quando este ponto é estabelecido, então surge, imediatamente, a pergunta: "Então, com que propósito a lei nos foi dada?" Portanto, era indispensável que esta dificuldade fosse também resolvida. Contudo, visto que não tivera oportunidade, naquela ocasião, de apresentar uma digressão mais extensa, então prorrogou sua consideração para a presente passagem. Ele agora mostra, suficientemente, que a lei entrou [em cena] a fim de que o pecado pudesse sobressair. Ele não está aqui a descrever todo o uso e função da lei, mas trata só daquela parte que servia ao seu presente propósito. A fim de estabelecer a graça de Deus, ele afirma que era indispensável que a destruição dos homens fosse-lhes mais nitidamente revelada. Em verdade, os homens já se achavam naufragados antes mesmo que a lei fosse promulgada; porém, visto que eles aparentemente sobreviviam, mesmo em sua destruição, achavam-se submersos nas profundezas, a fim de que seu livramento parecesse ainda mais extraordinário quando, ao contrário da expectativa humana, emergissem dos dilúvios que os subvertiam. Não é ilógico concluir que a lei fora em parte promulgada em razão de que ela pudesse outra vez condenar as mesmas pessoas que uma vez já haviam sido condenadas. Seremos plenamente justificados em usar todos e quaisquer meios para trazer os homens, e até mesmo forçá-los pela comprovação de sua culpabilidade, a ter consciência de sua própria impiedade.

Onde o pecado transbordou. E bem notório o método geral de interpretar-se esta passagem desde os tempos de Agostinho. Quando a concupiscência é reprimida pelos restringimentos da lei, a mesma é intensamente estimulada. Há no homem inerente tendência de esforçar-se por fazer aquilo que lhe é proibido. Mas acredito que aqui a referência é simplesmente ao aumento do conhecimento e à intensificação da obstinada, porquanto o pecado é, pela lei, exposto aos olhos humanos, de modo que se vêem constantemente compelidos a ter consiciência da condenação que lhes está reservada. Assim o pecado, que de outra forma seria por eles completamente desdenhado, toma posse de suas consciências. Agora que a lei já foi promulgada, e a vontade de Deus, que brutalmente pisoteavam sob a planta de seus pés, se torna conhecida, aqueles que antes simplesmente desrespeitavam as fronteiras da justiça, agora chegam ao cúmulo de desdenhar da autoridade divina. Segue-se disto que o pecado é intensificado pela lei, visto que a autoridade do Legislador é então menosprezada e sua majestade, degradada.

A graça se plenificou infinitamente. A graça veio em auxílio do gênero humano depois que o pecado subjugou a todos, e a todos manteve sob seu domínio. Paulo, pois, nos ensina que a extensão da graça é ainda mais admiravelmente revelada, visto ser derramada mui copiosamente à medida que o pecado pervade tudo, não só para conter a avalanche do pecado, mas também para que ela o destrua completamente. Aprendemos deste fato que nossa condenação não nos é exibida pela lei com o propósito de fazer-nos continuar nele, mas com o fim de familiarizar-nos intimamente com nossa própria miséria, bem como para guiar-nos a Cristo, o qual nos foi enviado como Médico ao encontro de nossa enfermidade, como Libertador ao encontro de cativos, como Consolador ao encontro de aflitos e como Defensor ao encontro de oprimidos [Is 61.1].

Para que, como o pecado reinou para a morte, assim também reinasse a graça através da justiça. Como o pecado é descrito em termos de aguilhão da morte, visto que esta não tem poder algum sobre os homens exceto em decorrência do pecado, assim ele executa seu domínio por meio da morte. E por isso que se nos diz que ele exerce seu domínio por meio da morte. Na última cláusula, a ordem das palavras é confusa, porém não involuntariamente. Se Paulo houvera dito "a fim de que a justiça viesse a reinar por meio de Cristo", seu contraste teria sido direto. Entretanto, ele não se sentia satisfeito em comparar os opostos, e então acrescenta a palavra graça, de modo a imprimir ainda mais profundamente em nossa memória a verdade de que toda a nossa justiça não tem sua procedência em nossos próprios méritos, e, sim, na divina munificência. Ele previamente dissera que a morte mesma havia reinado. Ele agora atribui ao pecado o conceito de reinado. Mas o fim ou efeito do pecado é a morte. Afirma que ele reinou no passado, não porque cessou de reinar naqueles que são nascidos somente da carne, senão que distingue entre Adão e Cristo de tal forma como a designar a cada um o seu próprio tempo. Portanto, tão logo a graça de Cristo começa a prevalecer nos indivíduos, o reinado do pecado e da morte também cessa.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010


A Vida Cristã deve ser Ativa


Paulo diz: “Na diligência, não sejais remissos” – (Rm 12.11) – Este preceito nos é comunicado não só porque a vida cristã deve ser ativa, mas também porque é próprio que às vezes desconsideremos nossas próprias vantagens e dediquemos nossos labores em prol de nossos irmãos; e nem sempre em prol daqueles que são bons, mas também em prol daqueles que se nos revelam ingratos e indignos. Em resumo, visto que devemos esquecer de nós mesmos na execução de muitos de nossos deveres, jamais estaremos adequadamente preparados para a obediência a Cristo, a menos que instemos conosco mesmos, esforçando-nos diligentemente por desprender-nos de toda a nossa indolência.

Ao acrescentar “fervoroso de espírito”, ele nos mostra como devemos firmar-nos ao preceito anterior. Nossa carne, à semelhança dos asnos, é perenemente indolente, e por isso carecemos de ser esporeados. Não há outro corretivo mais eficaz para nossa indolência do que o fervor do espírito. Portanto, a diligência em fazer o bem requer aquele zelo que o Espírito de Deus acendeu um nossos corações. Por que, pois, diria alguém, Paulo nos exorta a cultivar este fervor? Eis minha resposta: embora este zelo seja um do divino, estes deveres são destinados aos crentes a fim de que destruam sua indiferença e fomentem aquela chama que Deus lhes acendeu. Pois geralmente sucede que, ou abafamos, ou mesmos extinguimos o Espírito em razão de nossas próprias mazelas.

O terceiro conselho, “servindo ao tempo”, tem a mesma referência. Visto que o curso de nossa vida é por demais breve, nossa chance de fazer o bem tão logo passa. Devemos, pois, ser mais solícitos na realização de nossos deveres. Assim, Paulo, em outra passagem, nos convida a “remir o tempo”, visto que os dias são maus (Ef 5.16). O significado pode ser também que devemos saber como administrar nosso tempo, porquanto há grande necessidade de assim fazermos. Não obstante, Paulo, creio eu, está contrastando seu preceito entre servir o tempo e (servir) o ócio. A tradução em muitos manuscritos antigos é (kvpíw) – Hesito em rejeitar esta tradução completamente, embora à primeira vista não pareça relacionar-se ao contexto. Contudo, se ela é aceitável, creio que Paulo desejava relacionar o culto divino com os deveres que desempenhamos em favor de nossos irmãos e tudo quanto serve para fortalecer o amor, a fim de transmitir maior encorajamento aos crentes.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010


 Satanás é Ministro da Ira Divina – João Calvino



A impiedade é um mal secreto, ( “por isso Deus os entregou...” Rm 1.24) daí o apóstolo fazer uma demonstração muito enfática a fim de patentear que eles não podem escapar sem justa condenação, visto que esta impiedade era seguida dos efeitos que provam a manifesta evidência da IRA do Senhor. Entretanto, se a ira do Senhor é sempre justa, segue-se que tem havido algo neles que era digno de condenação. Paulo, portanto, agora usa estes sinais para provar a apostasia e deserção dos homens, benevolência ao lançá-los de cabeça para baixo na destruição e ruína de todo gênero. Ao comparar os vícios de que eram culpados com a impiedade de que os acusara anteriormente, ele mostra que estavam sofrendo castigo proveniente do justo juízo de Deus. Visto que nada nos é mais precioso do que nossa própria honra, é o cúmulo da cegueira não hesitarmos em atrair desgraça sobre nós mesmos. Portanto, é um castigo muitíssimo justo para a desonra praticada contra a Majestade divina.

Este é o tema que o apóstolo desenvolve no fim do capítulo, porém lida com ele de várias formas, pois o requeria considerável de ampliação.

Em resumo, pois, o que o apóstolo está dizendo significa que a ingratidão humana para com Deus é injustificável. O próprio exemplo deles prova sem rodeios que a ira de Deus contra eles é sem misericórdia. Porque jamais teriam se precipitado, como bestas, em tão detestáveis atos de luxúria, se porventura não tivessem incorrido no ódio e inimizade de Deus em sua Majestade. Portanto, visto que o vício mais flagrantes é praticado em todos os lugares, ele conclui que as provas indubitáveis da vingança divina são evidentes na raça humana. Ora, se esta vingança divina nunca age sem motivo ou de forma injusta, Paulo nos afirma que é evidente deste fato que essa destruição, não menos certa do que justa, ameaça a humanidade toda.

É totalmente desnecessário, aqui, entrar numa infindável discussão sobre como Deus entrega os homens à vida de iniqüidade. É deveras certo que ele não só PERMITE que os homens caiam em pecado, aprovando que vivem assim, fingindo não ver sua queda, mas também ORDENA por seu justo juízo, de modo que são forçosamente conduzidos a tal loucura, não só por seus desejos maus, mas também pelo Diabo.

Paulo, pois, adota o termo ENTREGAR em concordância com o constante uso da Escritura. Aqueles que acreditam que somos levados a pecar tão-somente pela PERMISSÃO divina provocam forte violência contra esta palavra, pois Satanás é o MINISTRO DA IRA DIVINA, bem como seu ‘EXECUTOR’, ele também se acha fortemente armado contra nós, não simplesmente na aparência, mas segundo as ordens do JUIZ.

Deus, contudo, não deveria ser tido na conta de cruel, nem somos nós inocentes, visto que o apóstolo claramente mostra que somos entregues ao seu poder somente quando merecemos tal punição. Só uma exceção se deve fazer, a saber: que a CAUSA do pecado, as raízes do que sempre reside no próprio pecador; não tem origem em Deus, pois resulta sempre verdadeiro que “A tua ruína, ó Israel, vem de ti, e só de mim o teu socorro” (Os 13.9).

Ao conectar os desejos perversos do coração humano com a IMPUREZA, o apóstolo indiretamente nos dá a entender o fruto que o nosso coração produzirá ao ser entregue a si mesmo. A expressão “entre eles mesmos” – é enfática, pois de modo significativo expressa quão profundas e indeléveis são as marcas da conduta depravada que trazem impureza a seus corpos.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010


 No dia da ira. Rm 2.5b, 6



Literalmente, introduzido no dia [grego, eiççççcç r||iépav, para o dia). Os ímpios, agora, amontoam em torno de si a ira divina, cuja força será derramada sobre suas cabeças naquele dia. A destruição virá sobre eles secretamente, a qual será, então, tirada dos tesouros divinos. O dia do juízo final é chamado o dia da ira, quando a referência é feita aos ímpios, embora o mesmo será um dia de redenção para os crentes. Semelhantemente, todas as outras visitações de Deus, no tocante aos ímpios, são sempre descritas como sendo horríveis e cheias de ameaças; no tocante aos fiéis, porém, suas visitações são agradáveis e trazem alegria. Daí, sempre que a Escritura faz menção da proximidade do Senhor, o fiel é convidado a exultar com intenso júbilo. Entretanto, quando se dirige aos réprobos, ela os golpeia com nada menos do que terror e medo. Diz Sofonias: "Aquele dia será um dia de indignação, dia de tribulação e de angustia, dia de alvoroço e de assolação, dia de trevas e de escuridão, dia de nuvens e de densas trevas" [Sf 1.15]. Há uma descrição similar em Joel 2.2, e Amós declara: "Ai daqueles que desejam o dia do Senhor! Para que quereis vós este dia do Senhor? Será de trevas e não de luz" (Am 5.18). Ao adicionar a palavra revelação, Paulo indica o que será esse dia de ira, ou seja: que o Senhor, então, manifestará seu juízo. Embora todos os dias ele dá indicações de seu juízo, todavia suspende e retém a clara e plena manifestação dele até àquele dia quando se abrirão os livros, as ovelhas serão separadas dos cabritos e se limpará o trigo do joio.

6.        O qual retribuirá a cada um segundo suas obras.

Paulo está a tratar com cegos pretendentes a 'santarrões', que acreditam que a perversidade de seus corações está bem oculta, desde que esteja coberta com, pelo menos, alguma aparência de obras fúteis. Ele, pois, realça a genuína justiça das obras que Deus leva em conta, caso presumam os homens, com base em sua falsa confiança, que é bastante agradar a Deus pronunciando palavras e meras bagatelas. Esta cláusula, contudo, não é tão difícil como geralmente se pretende. Ao punir a perversidade dos réprobos com justa vingança, o Senhor lhes dará o que realmente merecem; e, finalmente, visto que ele santifica os que previamente resolveu glorificar, ele igualmente coroará suas boas obras, porém não em consideração de algum mérito inerente neles. Esta prova, contudo, não pode ser extraída do presente versículo que, enquanto declara que recompensa as boas obras terão, não afirma, porém, seu valor ou o preço que lhes é estipulado. E uma insensatez concluir que algo possui mérito só porque é recompensado.